sexta-feira, 12 de março de 2010

minhas madrugadas

Ainda sem inspiração, morrendo aos poucos, cada noite um novo sofrer. Por isso que imploro ao samba, que se for para morrer, que morro ouvindo samba, ou morro na boemia. Assim terei a certeza que morri, vivendo. Por isso aqui lá vai mais um samba. 

quinta-feira, 11 de março de 2010

PARTIDA

Era uma noite singular, não existia beleza, tudo era obscuro. Todos já imaginavam a tua partida, todos de algum jeito buscava consolo de algum jeito, uns contavam causos, outros rezavam pedindo ao senhor para que não levasse ele, o que o deixasse ali, que recuperasse tuas forças e voltasse a ser o que sempre foi, um eterno sonhador. Ele agonizava naquele leito, naquele hospital, naquela avenida movimentada da metrópole cinza, carros passavam apressados, rumos diversos, alegria e tristeza se misturava naquele caos. Avistava os arranha-céus da janela do corredor, não tinha coragem de ficar ali dentro, dentro daquele leito obscuro de morte, esperando o suspiro derradeiro. Não pedia para ele ficar, nem partir, pedia para ele voltar a ter paz, seja lá aonde fosse, ele teria que ter a paz que aqui neste lugar que todos chamam de terra não teve. Imaginava o sofrimento das pessoas -  naquela cidade. E na alegria também. Pois a vida sempre há de ser o que é, sofrimento para uns, tristeza para outros, pois a felicidade nunca há de ser plena, pois sempre existirá o medo de perdê-la. As horas passavam devagar, o médico já tinha avisado para a família que ele não resistiria muito, pois a vida dele estava nas mãos dele, que não se podia fazer mais nada. Que o câncer havia se espalhado pelo o corpo. Bastava apenas a espera, pois não deve existir espera tão dolorida, quanto a espera daquele que esta prestes a morrer. Cenas do passado se passava pela minha cabeça, lágrimas escorriam pelo o meu rosto, tentava me pegar no passado, na alegria que ele sempre manteve dentro daquele lar, da pessoa singular e simples que sempre foi. Os conselhos que me dava - que dizia sempre para ser uma pessoa boa, não fazer mal à ninguém, pois essa terra sempre foi regada com ódio e sofrimento, que bastava apenas plantar amor, para num futuro se colher rosas. Pensava nas tardes que passávamos juntos em frente a televisão vendo jogos de futebol, e sua paixão doentia pelo o clube alvi-negro. Me perdia em pensamentos, porque uma pessoa que sempre plantou o bem, que sempre fez a coisa certa, tinha que sofrer tanto na sua despedida desta terra. Rogava praga a Deus, por levar ele assim, por não levar ele numa outra noite qualquer, quando sua alegria era irradiante. Se não podia morrer na cama ao lado da mulher que sempre amor, encostado na tua face ( pois sempre uma face de uma mulher será o consolo para o sofrimento dos homens), porque não podia morrer ali, ou até mesmo num dos bares que tanto passou. Tudo se perdia naquela noite, me perdia de mim, tentava pensar no que seria sem a companhia dele ao meu lado. Não sabia se resistiria viver sem a companhia tão agradável dele. Pensava nas pessoas que ali estavam na mesma situação que a minha, esperando a pessoa que mais amou na vida esperando o relógio badalar para o suspiro de adeus. A cidade me invadia, invadia meu ser, ali que ele tanto viveu, desde o momento que abandonou tua Gerais, que veio atrás de uma vida melhor. Que aquelas avenidas não sentiria mais os passos lentos dele. Que os bares que ele tanto freqüentou sentiria o banco vazio aonde ele costumava sempre sentar. Fiquei ali a devagar sobre a vida, sem entender nada dela, sem entender porque sempre tem que ser assim. A madrugada se aproximava, as horas de vida dele diminua, a minha também. A coragem que me faltava para entrar naquele quarto, me veio. Respirei fundo, enxuguei as lágrimas que escorriam   pelo o meu rosto, pois tenho a certeza que ele não gostaria de ver chorando. Abri a porta, avistei o corpo dele magro coberto pelos lençóis, avistei a paz que ali existia, avistei a solidão noturna naquele leito de morte. Tua respiração era lenta, me aproximei da cama, peguei tuas mãos dei um beijo, segurei firme, chorei como nunca antes havia chorado, lamentei tudo aquilo, lamentei que dentro de algumas horas, ou talvez alguns dias ele não estaria mais ali. Beijei tua face, assim como ele fazia comigo nas noites em que passei no hospital com pneumonia ( na qual quase morri). Me lembrei que hoje era o inverso, que agora era eu que beijava tua face assim como um pai faz com um filho. Fiquei poucos minutos ali, pude perceber que ele não resistiria aquela madrugada, algo me dizia que não, que morreria no amanhecer do dia, assim quando o sol desperta a cada manha, ele despertaria para tua eterna partida deste mundo. Dei novamente um beijo na tua face, sussurrei no teu ouvido, que sempre haveria de estar com ele e ele sempre haveria de estar comigo aonde quer que fosse. Caminhei lentamente, abri a porta, antes de fecha-la lancei um olhar de adeus e de agradecimento por tudo na direção dele, pude perceber que mesmo dormindo sentiu minha presença ali, fechei a porta. Senti o peito doer, contive as lágrimas, prometi nunca mais entrar num leito à espera da morte levar aqueles que amo, de lá pra cá, os dias não foram mais os mesmo, de lá pra cá, as manhas nunca foram tão silenciosas e doloridas para mim, pois o vazio que ele deixou naquela casa, ainda sinto, por longos anos sentirei, até o meu partir daqui.  

SOFRO DENTRO DE BUTECO

Como sofro dentro de buteco, sempre digo isso. Na noite de ontem não foi diferente. Estava lá sentado na minha cadeira de sempre, uma banco ao meu lado dando apoio para garrafa, copo, cinzeiro  ( lá é permitido fumar, principalmente em dias de jogos de futebol), quando um malandro me vem torrar o meu saco.  Fui sozinho para o bar, fiquei ali, esperando o jogo começar, soava como nunca antes, não sei se foi por causa do conhaque ou por causa da ansiedade para o começo do jogo. Este malandro que nunca vi na minha curta carreira dentro de bares, malandro mais chato que aquele. Começou dizendo que aquele bar era um lixo, que o dono era um filadaputa, que a porra do Corinthians tinha que se fuder, que os torcedores do Corinthians era todos vagabundos. Ficou falando um monte de asneira na minha orelha. Como a minha paciência anda curta nos últimos tempos, se tratando de buteco não existe bons modos, mandei ele tomar no cú. Ele silenciou, ficou quieto. O jogo começou, as garrafas foram esvaziando numa espécie de mágica. Quando o mesmo veio em minha direção novamente, me xingando de filadaputa, eu disse para ele calar a boca, que não queria briga, pois minha missão era de paz. Me levantei fui até o Baixo ( dono do buteco), - disse que não agüentaria um xingo novamente. Ele pediu calma para mim, que daríamos uma lição naquele caboclo. O malandro me xingava, me xingava, eu quase explodindo, fui na direção dele, para dar um murro, quando num rápido movimento o baixo meteu o tapo na cara dele. Agarrou pelo pescoço enforcando o mesmo, que começou a chorar, chorava feito uma criança. Pediu desculpas para todos que ali estavam, veio na minha direção com as mãos pedindo perdão. Mandei ele novamente tomar no cú, pois já estava puto, que o malandro fez eu perder o jogo na televisão e o desrespeito comigo, taquei o copo de cerveja no rosto dele, arrastei ele joguei ele na calçada. Mandei ele novamente para a puta que o pariu. Ele ficou parado no portão chorando, pedido perdão, querendo entrar. Quando o Baixo num ato de maestria, abriu o portão, arrastou ele que grudado nas grades não queria sair, arrastou pela rua até a praça dizendo que se ele pisasse novamente naquele chão as coisas não seriam daquele jeito. Foi assim uma noite daquelas, aonde o buteco se mostrou valente e lugar de respeito, tem que pisar devagarinho, senão o bicho pega, e o Corinthians que não jogou merda alguma, foi acima daquele bêbado a decepção maior.

terça-feira, 9 de março de 2010

Sentado na porta

Perdido nos caminhos e labirintos da vida, a cada dia tentando se achar, se perdendo aos poucos, coração partido, vagando pelos bares e ruas solitárias de minha infância aonde o buteco e o papo é o refúgio imediato para a dor. Ou seja a minha sina é essa, é sofrer, é amar, é lamentar. Como a noite - aonde se aparece os vazios da alma, aonde é difícil esquecer o preto da solidão, como disse é no bar e no papo que busco alento. Hoje depois de uma noite memorável, depois de um longo papo que durou cerca de 6 horas, depois de algumas ampolas geladas, e a saudade doendo aqui dentro, com os olhos marejados deixo aqui uma cena que não sairá da cabeça por o resto de minha vida ( que temo achar que não durará muitos anos). 

Sentado na porta

Sentado na porta do buteco para que todos que ali passassem pudesse ver, que ali vivia mais um bêbado de porta. Aqueles que ficam numa das mãos o cigarro, na outra o copo. Companhia inseparável. A noite linda, lua prateada no céu, algumas poucas estrelas, acalmava o peito meu. Dolorido e cansado de outrora. Relembrando amores que se perderam no escuro num quarto vazio - meu velho amigo, querido, me fazia companhia. Pois nessas horas o amigo, o bar, as garrafas, são as melhores companhias. Alguns carros passavam acelerados na ânsia de chegar ao destino, buteco vazio, alguns freqüentadores, poucos, mas fiéis ao estabelecimento. Quando observo uma mulher, no auge dos seus 50 anos, observando o marido ( assim achei), enxugando uma ampola de Brahma, para ser mais preciso acho que já era a décima. A mulher ficou ali do meu lado, reparei no olhar dela, olhar vazio, olhar triste, perdido naquele ambiente. Falei para o meu amigo, que aquela mulher estava esperando alguém sair de la de dentro. Ele ainda comentou a beleza da mesma. Concordei dizendo que era uma mulher bonita apesar da tristeza que vinha dela. O meu amigo ainda zoando da minha cara, me chamando de poeta, disse que era linda, que amaria ela para o resto da vida. Algo me chamava, algo de curioso vinha daquela mulher, algo que não sei explicar. Ela arremessou a guimba do seu cigarro na guia da calçada, entrou no buteco, pegou nos braços daquele homem, que zanzava, lamentando, querendo terminar a saideira. Ela disse calmamente, vamos embora, vamos embora, pediu a conta, pagou. Todos imaginavam que a mulher faria uma escandalosa, mas não, uma paz saiu daquela mulher, ela venho caminhando em direção a porta, abraçado com teu marido que chamava carinhosamente de nego, dizendo que terminaria a saideira em casa - que tinha cerveja na geladeira, que ela o amava. Sairam os dois de braços dados, ela guiando o marido bêbado pelas ruas de minha infância. Ficamos ali, eu e meu amigo, se perguntando a respeito de tal, ele que é casado, me disse:
- Malandro, essa é a mulher que sempre sonhei para mim...

Sem precisar dizer mais nada, pois a noite veio no brilho daquela cena, a luz da vida vi no olhar daquela mulher, que além dos pesares, além de tudo, o amor  fala e grita dentro dela. 

Depois disso, daquela cena, que ficou e certamente ficará dentro de mim, por longos anos, foram mais algumas ampolas geladissímas que enxugamos com uma sede de ontem, tendo a certeza mais uma vez, que o buteco é o melhor lugar para se ficar.

segunda-feira, 8 de março de 2010

SAMBA DE FATO

Como andO sem inspiração para escrever ( se é que tive um dia), deixo aqui mais um samba. Já que a maré anda complicada para o meu lado, já que o ano mal começou e esta tudo mudando rapidamente, aonde não consigo acompanhar. O jeito é apelar para o samba, velho companheiro, guerreiro, que espanta os males, que renova a confiança e a esperança, mas não digo, pois o samba é muleque atrevido, malandro. 

Então fique meus poucos leitores com uma obra prima, de uns dos sambistas importais, que viajou antes do combinado ( apud Rolando Boldrin), o mestre Luis Carlos da Vila - Benza, deus. 

Até.

domingo, 7 de março de 2010

Como lhe disse se pudesse escreveria nossa história de um jeito diferente. Arrumaria os erros, acertaria mais, tentaria todas as manhas lhe fazer feliz de algum jeito. Hoje recordando daquilo tudo que foi, e o que ficou que ainda arde aqui dentro, a cama o espaço vazio, um travesseiro apenas me matando por dentro, a falta que o teu cheiro faz nessa cama, teus braços me apertando, teu corpo colado ao meu, tua paz, teu carinho. Tenho tido algumas recaídas à pensar em você. Talvez como escrevi acima, escreveria nossa história de um jeito, não que fosse uma linda história, mas pelo o menos menos dolorida, nessas noites vazias, aonde o velho jazz, o velho copo de conhaque ( sei que você pediu para eu parar de beber), mas não é possível, com o peito do jeito que anda. Talvez se colocasse um pouco mais de poesia, talvez se diminuísse o ciúmes que sentia de você, talvez nossa história tenha sido diferente. Talvez, apenas um talvez, talvez te ligasse agora para lhe dizer o quanto te amo, mas acredito que não é o melhor a fazer, pois você na certa diria, para que eu não ligasse de madrugada e ainda por cima de porre. Talvez é melhor deixar assim como esta, teu fantasma me assombrando nas minhas noites, teu cheiro a me acompanhar, perder-me querendo te achar, talvez siga assim, me matando aos poucos, querendo de fato lhe amar mais uma vez. Talvez eu ainda te vejo, naqueles lugares que nunca entramos, naqueles bares que nunca bebemos, naquele samba que chorávamos juntos, talvez naquele teatro que nunca entramos, talvez te veja assim de algum jeito, talvez te veja mesmo que você não sabendo ou se sabendo duvidando que ainda te amo. Talvez queira ainda ouvir tua voz nem que seja por um único segundo que talvez possa durar um eternidade, talvez minha querida, você venha numa espécie de fada, me acompanhar nessas minhas noites de angústia, nessas noites errantes, talvez, é o que posso ainda dizer. 

SAMBA PARA MEU PAI

Foto: João Nogueira

Depois de uma noite agradável em tua companhia, depois de perceber que tenho muito de você em mim, que o espelho não se quebrou, dedico aqui um samba em tua homenagem Espelho - João Nogueira - Paulo César Pinheiro. Copos em mãos como você faria em outros tempos (tempos que bebia industrialmente), cigarros nos lábios, assim vai meu querido pai, um samba pra você aonde quer que tu esteja.