quinta-feira, 1 de outubro de 2009

PARA VOCE

Conforme lhe prometi, que lhe escreveria, aqui vai. Não estou embriagado é fato, não essa embriaguez causada pela bebida. Estou embriagado é de saudade de você. Distanciado há alguns meses, ausente de você e de mim, perambulo por ai, bebo um pouco aqui, um outro tanto ali. A desculpa é sempre a mesma: a bebida me comove. Comovido neste exato momento, recordando dos tempos vividos em sua companhia, olhando o teu olhar iluminado, buscando neles a razão do meu existir, procurando neles o caminho da felicidade. Recordo do seu sorriso, neste exato momento sorrio aqui, como um tolo eu fui. Recordo das nossas idas e vindas por ai, na cidade cinza, me recordo dos constantes telefonemas dados, recordo das suas brincadeiras, recordo das minhas cartas escritas para você, recordo dos tempos em que contava os minutos para te ver, recordo da seleção de músicas que fiz para você ter um cd gravado apenas para você, recordo dos nossos cafés da tarde, na qual levava teu pão, recordo das minhas viagens levando você dentro de mim, para que junto de mim pudesse viver aquele momento junto à mim, recordo das músicas que escutávamos dentro de teu carro, recordo dos abraços carinhosos trocados, recordo das nossas conversas saboreando uma cerveja. São tantas recordações que seria incapaz de aqui coloca-las. O tempo se foi, tudo mudou, ou não? Não somos as mesmas pessoas do passado, já não somos um tanto presente um na vida do outro. Não deu certo me perdi, não fui capaz de aceitar apenas tua amizade, quis ir um tanto além, e não cabia nada nesse além. Desejei ser um tanto mais presente em sua vida, desejei lhe dizer juras de amor eterno, desejei colar meu corpo no teu, desejei beijar teu sexo, desejei teu amor. Os desejos foram maiores que tua vontade, hoje em algum canto da cidade você vive, hoje num outro canto da cidade, procuro esquecer tudo isso, hoje escrevo essas mal traçadas, como fiz tantas outras vezes, hoje apenas o que desejo é que adormeça no meu peito, essa eterna chama que não se apaga, essa eterna chama que é amar você.

TELEFONEMA

Ontem recebi dois telefonemas de uma mesma pessoa, não conhecida pedindo socorro dizendo que foi roubado. Sem saber o que dizer no momento, apenas escutei o pranto alheio. Ele chorava, suas palavras saiam emboladas, clamava por socorro. Fui capaz apenas de lhe dizer: tenha calma, tenha calma... Sem saber quem era essa pessoa, o que tinha acontecido com ele, o que tinha sido roubado dele, foram indagações que fiz. Fiquei com este telefonema o resto do dia na cabeça - misturei os fatos, já que para piorar a situação estou lendo um livro que relata o cotidiano da violência no Rio. Sem conseguir fechar os olhos sem imaginar na cena, o desespero do rapaz, implorando por ajuda do pai, o caos que se tornou essa porra toda. Não sei daonde surgirá a luz, mas algo tem que mudar nessa porra toda, seja com ajuda de Deus, ou do Diabo, vai mudar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

SOLANO TRINDADE

Sou um leitor de poesia, embora o que eu escreva esteja pra lá de qualquer coisa, menos poesia. Um poeta que vem me chamando atenção é o poeta Solano Trindade, que também foi pintor, teatrólogo, ator e folclorista. Solano nasceu em Pernambuco em 1908, conhecido também como poeta negro ou poeta do povo. Sempre com sua poesia militante, vem me incentivando a buscar a conhecer mais as causas, e raízes negras. Deixo aqui um de seus poemas.

Tem gente com fome

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SEU LUIZ E DONA MARIA

O tempo não passa, enquanto existir saudade...

Fiquei sabendo dessa estória há poucos dias atrás, pelo o próprio seu Luiz. Seu Luiz me contou, ou melhor me confidenciou que desde da morte de Dona Maria, para ele a vida havia parado, havia desistido de viver depois da partida de Dona Maria. Eles foram casados 40 anos, tiveram 7 filhos, e uma quantidade enorme de netos. Por muitos anos Dona Maria, foi minha vizinha junto com o seu Luiz. Uma grande parte da minha infância foi passada em sua casa, na companhia de seus filhos. Me recordo de tantas estórias e lembranças ali vividas. Brincadeiras, sonhos, brigas, tudo isso. hoje um pouco mais crescido, um pouco mais esperto em relação à vida, posso compreender o que passa com o seu Luiz. Ali na sua casa, presenciei entre os dois cenas lindas, de companheirismo, de compaixão, de amor entre os dois. Dona Maria, sempre foi dona de casa, alegava que não precisava trabalhar, que sua vida era cuidar dos filhos, educar para um futuro melhor. Há poucos anos atrás, com o seu Luiz aposentado, depois de trabalhar arduamente 30 anos numa mesma empresa, conseguiu se aposentar, realizando seu velho sonho de terminar a vida ao lado da sua esposa numa cidade qualquer do interior paulista. Realizaram todos os sonhos, viajaram bastante, consertaram à casa que havia comprado, deixando assim a casa enorme para melhor aconchegar à todos. Como disse no começo deste relato, Dona Maria, partiu aos 59 anos de idade, de infarto fulminante. Deixando todos tristes e solitários. Fiquei sabendo de sua morte, quando realizava uma pequena viagem a minha querida Minas Gerais, sua morte, causou em mim um impacto muito grande. Ainda recordo da voz triste e calada, de minha mãe ao telefone, informando do seu falecimento. Sentei numa mesa de um buteco, pedi uma cachaça e uma cerveja e fiquei a-lembrar do passado. Quando voltei de lá, para cá, estava triste com sua partida, minha mãe me disse que todas suas amigas estavam partindo - que a morte era cruel. Tinha toda razão. Mas voltando ao papo que tive com seu Luiz, ele me disse que era um amor eterno que sentia pela dona Maria, que nesses 40 anos que havia vividos juntos, nunca houve nenhuma espécie de desrespeito por ambas as partes. Me contou também de todos os problemas que juntos enfrentaram, um na companhia do outro. Escrevo este texto, em dias tão individualistas, que casamentos duram no máximo 5 anos, é um belo exemplo de vida. Sua dor eu não sei medir, é uma dor que não passará, mesmo que o tempo passe, não mudará. Me contou que não consegue ficar na imensa casa sozinho, que olha para todo e qualquer canto, e lembra dos pitacos dado por ela na construção da casa, dos pitacos, nas arrumações. Que olha para os móveis, para os equipamentos eletrônicos, e vê o vazio, deixado por ela. O silêncio de uma casa vazia, é maior que um silêncio numa catedral, é um silêncio que fere, que causa sofrimento e dor. Me disse, que a vida, não é nada demais, que a todo instante se cai e nem sempre se levanta. Disse também que foi o baque maior que levou nesses 63 anos de vida, que nem a morte dos seus pais doeu tanto com a morte da esposa. Disse que a cura para os males, estava no bate-papo que tinha com os amigos, que sentava no buteco, mesmo tendo parado de beber há anos, era ali no bate-papo com os amigos que tirava o alento para seguir em frente. Disse também que adorava conversar comigo, que apesar da minha pouca idade, era um bom sabedor das coisas da vida, que tenho um papo bom. Seu Luíz, com essa dor dele, me convenceu a parar e pensar no que realmente vale na vida, eu que diga de passagem nunca fui um cara materialista, nunca liguei para coisas materiais, ouvir seu lamento me deixou realmente abatido e triste. Pude perceber o que realmente importa nessa curta passagem por essa terra, importa é o amor, é fazer o bem, é ser uma pessoa melhor, é escrever mesmo sabendo que não importa mais uma estória, é escrever um poema para a pessoa que ama, é tocar uma canção, é dançar junto a valsa da vida, é amar os defeitos, é sonhar com a plenitude, é escutar do silêncio do companheiro o conforto, é encontrar nos olhos da pessoa amada a estrada para seguir em frente, mesmo que em enfrente não signifique mais nada.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

É VERDADE

É verdade que tudo é passageiro, e nessa viagem vamos indo. É verdade também que desprezamos nossa tristeza, é empurrado à nossa goela abaixo o riso, à falsidade, mesmo quando desprezamos tudo e todos e se trancamos no quarto da tristeza e da solidão. É verdade que depois de amanha desprezamos a melancolia e voltamos a sorrir. É verdade que algum canto da cidade você se encontra trancada na chuva interna que tomou posse de você, é verdade no seu criado mudo, uma taça de vinho é companheiro nas noites de frio e solidão. É verdade que naquelas linhas escritas pelo o poeta, você encontra o alento para seguir adiante. É verdade que não componho blues, olha lá um samba, é verdade que aqui dentro, dentro do coração ainda resta os sentimentos por você. É verdade que amanha tomarei um porre certeiro, querendo esquecer você, é verdade que amanha você completa anos, e ao seu lado o outro irá sorrir, e lhe dizer juras de amor eterno, é verdade que nunca te esquecerei, é verdade que amanha sofrerei a eterna agonia de lhe ver feliz com outro, que não é o meu ser.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

CHUCK

Depois de um dia longo e corrido. Com os nervos à flor-da-pele, resolvi dar uma pausa de alguns compassos, não que seja para ver as meninas, mas tão bela como se fosse, uma pausa para dar um pulo até o buteco. Depois de muita correria é chegada hora de tirar o pé, esvaziar a mente, papear, e nada melhor que o buteco. Não é preciso dizer em qual bebi essa noite, acredito que vocês meus fiéis leitores já imagina qual é. Caia uma longa garoa fina, noite fria, ideal para tomar uma bebida quente acompanhado de uma cerveja. Os amigos reunidos, colocando para fora seus assuntos, que são vários diga de passagem. Mas o assunto que mas me deixou inculcado digamos, é o sumiço do Chuck, isso mesmo do Chuck. Apelido dado por um grande amigo meu, ao mais bebedor daquela espelunca, devido à sua semelhança com o ator americano Chuck Norris. Chuck, é um velho conhecido de todos por ali, bebedor nato, para não chamar de cachaceiro, apelido que não gosto. Chuck, não dá as caras naquela espelunca já faz 15 dias. O malandro que mora em frente ao buteco, atravessou a rua chegou. Já havia escrito aqui o sumiço de um outro bebedor que tomou um chá de sumiço. Assunto que vem me assustando, é o sumiço destes malandros, que ninguém sabe. Corre a lenda, que o Chuck fez uma promessa de nunca mais beber, e por isso não tem segundo o que conta motivos para pisar num buteco, o que discordo plena-mente. Chuck, confesso que esta fazendo falta, cabra sem brincalhão, generoso, bondoso, sujeito engraçado. Quando estava de pileque teimava em pagar cerveja para todos ali presentes, sempre dizia, que o dinheiro para ele não tinha importância, o que realmente importava era todos ali bebendo, a comunhão de todos. Dizia também que sua vida não tinha graça, depois de tanta desgraça e solidão nos últimos tempos, sua vida não valia nada. Teimava que a bebida era a cura para sua desgraça, que só largaria a mesma, depois de morto, e se Deus deixasse, desceria até a terra para comprar algumas ampolas, para ver lá de cima bebendo umas os seres humanos se matando aqui embaixo. Espero que o malandro volta na praça, e com ele volta alegria de realmente se poder beber na comunhão dos amigos, celebrando a glória de estar vivo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

GERAIS, GERAIS

Um dia, te direi,
minha gerais, quanto encanto,
me causa, seus vales, suas montanhas,
seus poetas, seus cantadores.

Um dia quem sabe, cantarei,
para o mundo, teu cantos e encantos.

Quem sabe, Gerais, tu não ficas conhecida ainda mais?

Quem sabe, Gerais, poderei me enfartar numa tarde ensolarada,
tomando cachaça debaixo de um jequitibá.

Quem sabe, se a tua culinária à base de fubá, carne de porco,
não me matarás de gula.

Quem sabe, embriagado, por tua água, pescando nos rios,
eu não me esqueça, que viver vale a pena, se alma não for pequena.

Quem sabe, Gerais eu não me apaixono por uma morena, e vá morar,
nas suas montanhas.

Quem sabe, Gerais, não escreva um livro de poesias, para nas noites de lua cheia,
declamar.

Quem sabe assim sonhando, eu não esqueça um dia de acordar,
quem sabe, Gerais, um dia me enterrar nas suas terras.

Quem sabe, Gerais, o meu encanto por você, que não largarei nunca, jamais.