quinta-feira, 25 de março de 2010

Menina que anda ausente,
me mostra tua tatuagem,
cobre minha pele com teu amor.

Menina que não sei chamar de mulher,
que carrega dentro si, o dom de multiplicar,
que corre atrás dos sonhos, que se perde, que se encontra.

Menina me diga que poesia posso te escrever

Menina que anda ausente, me diga qual música tu ouve
neste momento.

O que fazes menina nessa cidade tão estranha,
em que bares tu entra menina.

Menina me diga qual é a marca do teu cigarro,
qual é teu signo.

Menina me diga se tua pele ainda é aquela pele bronzeada,
me diga, qual é o cheiro do sertão neste mês de março.

Menina, aonde tu se desfaz, aonde tu se encontra,
talvez tu venha ao meu encontro,
para enfim acabar como meu desencontro.

quarta-feira, 24 de março de 2010

SAMBA PARA UMA NOITE TRISTE

Essa noite, esse eterno vagar por ai,
lua no céu, cidade que tanto conheço,
distância que tanto sofro.

Saudade queima no peito,
tanto para viver, tanto para apreender,
tanto para esquecer.

Amigos meus, por onde anda vocês?
Aonde vocês foram parar,
aonde posso te encontrar meus caros amigos.

Para desfrutar junto a mim, essa dor, essa agonia.
Compartilhar meus prantos, lamentar as dores,
beber uma cerveja gelada, em tua companhia, meus caros amigos.

Essa cidade não é a mesma que aquela,
sinto as ruas vazias, sinto que o céu tem menos estrela que o meu sertão.

Aqui não tem açude, aqui não tem piquenique.

Não tem pescaria, meus caros amigos.

Me diga como posso viver assim, sem aquilo que tanto amo,
sem desfrutar de tuas companhias ilustres amigos.

Aqui a coisa esta feia, é um tanto de compromissos,
essa noite, esses cigarros que me falta,
pouco dinheiro, pouca companhia.

Meus amigos, sei que um tanto longe estou, sei
que não despedi de vocês, mas carrego aqui dentro todos vocês.

E quem sabe num futuro que espero que seja um tanto breve,
nos encontramos meus amigos, para enfim poder viver e contar o que
aconteceu comigo, nesses tempos de ausência, nesses tempos de eterna solidão.

terça-feira, 23 de março de 2010

SEU ADEMAR

Confesso que ando muito emotivo nos últimos dias. Talvez um tanto saudosista, não sei bem explicar. Acredito que isso se dá ao alto teor alcoólico que vem me acompanhando. Tenho sido remetido ao passado, tem tido sonhos com o meu tempo de menino, tenho chorado ouvindo Dorival Caymmi, tenho me emocionado com saudades das Gerais, de seus vales, de suas igrejas, de seus bares, de suas mulheres e porque não da cachaça. Não sei bem como começou. No último sábado contrariando as estatísticas que sempre se tem que beber acompanhado, fuji dessa idéia e fui sozinho até um bar aqui perto de casa, do meu querido seu Ademar. Seu Ademar é um ser tranqüilo, honesto, corinthiano assim como eu, mineiro assim como meus pais. Queria a solidão como minha companheira, queria pensar na vida, no que tinha vivido nos últimos tempos, uma pausa de mil compassos. E claro, beber minhas cervejas e tomar uma cachaça. Seu Ademar reparando no meu ar desolado, veio na minha direção perguntando se algo de errado havia acontecido, porque no meu semblante a tristeza refletia. Não consegui esconder as dores no peito, fui logo dizendo o que se passava. Seu Ademar, calado, prestando atenção no que ia dizendo, me disse: menino, larga de besteira, a vida é assim. Levante a cabeça, pois tem muitas coisas para viver. Problemas todos tem, inclusive este senhor de cabeça branca aqui. Me disse para esfriar a cabeça, não cometer nenhuma tolice. Ficamos ali conversando até tarde da noite. Me contou causos de nossa Gerais, do seu tempo de menino, do seu tempo de adulto aqui em São Paulo, falamos do mingau de couve feito no fogão à lenha, do frango com quiabo, da nossa música brasileira, do nosso time de futebol, das mulheres. Uma conversa sincera e franca, que passou por tudo. Como ando saudoso para com tudo, comecei a chorar, um choro de alegria, um choro de encanto, um choro de saudade. Seu Ademar, também se emocionou, me disse que eu era um bom menino, sabe-dor das coisas. Prometi para ele que gravaria alguns CD'S de música brasileira para ele, para ouvirmos ali naquele buteco humilde, sentado naquele banquinho em frente. Seu Ademar, como ainda não gravei teus CD'S deixarei aqui uma música em homenagem a você e a nossa saudosa Minas Gerais. 


Até.


sábado, 20 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Adeus meu caro amigo

A meu caro amigo, o que lhe dizer neste momento. Sinto uma pena enorme dentro de mim, um sentimento de vazio, um sentimento ruim. Sim meu caro amigo estava ausente quando você mais precisava de mim. Porque tu cometeste este ato de covardia, de lhe tirar a própria vida. Porque tu queria assim meu caro amigo, partir e me deixar sozinho pelos bares. Porque tu meu caro companheiro de boemia, porque meu amigo. Sinto meu caro essa ausência que foi minha vida nestes últimos tempos, não sei meu caro amigo aonde me meti, aonde me perdi. Me desculpe o meu egoísmo de não ser capaz de ser um tanto mais presente, o quanto você mais precisava de mim, o momento que tu precisava aonde eu estava que nem mesmo eu sei. Sinto meu caro amigo, chegar num buteco aqueles que a gente tanto amava, que tantas noites afora passamos juntos, jogando conversa fora, falando das mulheres que amamos, e daquelas que não fomos capazes de entrar no coração dela. Porque meu caro amigo, tu partiste assim, me diga meu caro amigo. Hoje nessa madrugada que tento com o coração partido escrever essa crônica, que os meus olhos marejados se perdem em nossas lembranças. Meu caro amigo, não fui capaz de lhe ver naquele caixão, confesso que não quis ver, pois tua imagem que tenho aqui guardada dentro de mim, são aquelas imagens meu caro amigo, que junto construímos pelos os bares, você sempre calado, sempre tão poeta, eu falador, bocudo, irritado com tudo ao redor. Hoje meu caro amigo, observei o desconsolo de sua mãe, chorando em cima de você, tua pele fria, ela beijando tua face, meu caro amigo não aguentei aquela cena, você que deveria saber que meu coração é um tanto fraco, que não aguenta tantas emoções meu caro amigo. O quanto me doeu aquela cerimônia de despedida, ver você ali trancado naquele caixão, perdendo mais uma noite de boemia, perdendo mais um coração apaixonado de mulher, das tantas que você conquistou. Lamento meu caro, lamento tua companhia que não terei mais, lamento que tu partiu assim, lamento. Hoje estive no buteco, pois você deve saber que lá é o meu lugar, todos meu caro amigo, perguntaram por você. Todos se questionavam, não fui capaz de lhes responder. Fiquei naquele canto que sempre ficávamos, pedi uma Brahma e dois copos, deixei o teu cheio em tua homenagem, pois sei que de algum jeito você dará um jeito de bebê-lo, é meu caro amigo, teu vazio naquele buteco me dói, não sei se conseguirei pisar ali novamente, não sei meu caro amigo, pois sempre que ali estiver lembrarei de ti, isso me machuca. Hoje meu caro amigo para terminar o texto, escrevi um poema que tu gostaria, cantei aquele samba que você gostava. Disse para aquela menina que você sempre amou, mas que nunca teve coragem de lhe dizer o tanto que amava. Me desculpe talvez não deveria ter dito, mas enfim, me despeço meu caro amigo, seja lá aonde tu estiver, saiba que sempre estará comigo pelos botequins mais vagabundos, desfilando nossas poesias vagabundas. Durma em paz meu caro amigo. Me guia aqui nessa terra, pois os meus passos não estão na direção certa, pois bem sei que do jeito que tu é malandro já deve estar numa boa, acompanhado de mulheres lindas, cantando samba. Adeus meu caro amigo, adeus...

Crônica de Rubem Braga

Despedida


E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão.
É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil. Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações?
Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus. A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.