quarta-feira, 31 de março de 2010

MEU CARO PAI

Meu caro Pai, 

Tu que andas ausente deste teu pobre filho. Que tu colocaste neste mundo para sofrer um tanto. Pai aonde tu andas meu caro pai? Em qual buteco tu se perde, em qual quebrada tu vive, apareça meu caro pai. Teu filho que anda um tanto ausente se perdendo nos bares da vila - bares que tu cansaste de entrar e se perder ali, meu caro pai aonde tu se meteste nessa noite, aonde tu parasse que não lhe encontro. Meu caro pai a saudade de tu me imunda, meus olhos marejam ouvindo essa moda de viola que sempre amou. Tu que sempre foste um músico na tua maneira, sem ligar para modas, tu que sempre carregaste a minha querida Gerais. Hoje este pobre ser que tu colocaste ao mundo naquela manhã cinza de abril no ano de 1984 de lá pra cá a vida meu caro pai foi um tanto dolorida, meu caro pai tu que sempre foste alegre, malandro, apareça. Venha diminuir meu pranto com tua presença, venha meu caro pai. Deixo aqui uma música que tu cantaste naquelas tardes de domingo, para que tu sempre saiba o tanto que lhe amo. 

terça-feira, 30 de março de 2010

UMA TARDE QUALQUER

Tu que andava perdida pelos os bares, pelas praças, pelos teatros. Um tanto perdida de si. Te encontrei naquela tarde, pois haveria de ser o nosso primeiro encontro - uma tarde cinza, a metrópole passando apressada. Uma praça, uma pausa para compra de cigarros, uma cadeira, uma mesa, algumas garrafas e você do outro lado da mesa a me contemplar. Percebia teu olhar  perdido em mim, prestando atenção na minha fala simples, nos meus poucos adjetivos, percebia algo de sublime em você. Por ser o nosso primeiro encontro quase nada esperava, além de te conhecer. Conversas variadas, diversos temas, diversos copos, diversos olhares. A noite se aproximava, as horas passavam rapidamente. Falávamos de tudo, cantávamos sambas que um como o outro adorava, falava da vida, do desespero de viver, do desespero que é entender certas coisas. De lá pra cá andamos um tanto ausente um do outro, você tomou caminhos desconhecidos por mim, assim como eu tomei caminhos desconhecidos, mas ambas de doando, vivendo, se entregando. Boemia comendo solto, nos estragando a nossas maneiras, jogamos fora a vida numa bebedeira. Você como sempre foi mais longe, você se perdeu um tanto a mais que eu, numa dessa bebedeira tu quase morreu. Um susto enorme para aqueles que a amam, um susto danado tu me deste menina. Pois não imagino o mundo sem sua presença, sem o teu olhar fraterno, sem sua poesia. Sei que nada sei da vida, nem dou conselhos pois desconheço eles, não sei o rumo que a nossa vida tomará, não sei. Além do que eu nada sou, eu nada sei. Mas espero que tu possa ver as primaveras que virão, que tu possa escutar o som dos passarinhos a cantar numa manha de domingo. Que tu possa viver, que tu possa ser um tanto amada, que tu pode ser um tanto mais desejada inclusive por este que escreve essas linhas errantes. Pois a vida nada vale sem ter você por perto. Portanto minha querida menina, tome cuidado, não se desfaz tanto, reconstrua teu caminho assim como fez diversas vezes, reconstrua teus sonhos, teus amores, quando der lembre deste pobre que escreve essas mal-traçadas.    

segunda-feira, 29 de março de 2010

Nessa noite em que o glorioso São Pedro castiga minha querida terra da garoa ( agora virou das chuvas), nessa noite aonde apelo para todos os santos, todos os orixás, todas as rezas e mandigas, para que a chuva diminua, e que possa dormir sossegado. Nessa noite aonde minha embriaguez me falta - nessa noite em que a bebida se faz ausente, aonde a escassez de bebida me deixa um tanto sem graça, nessa noite na qual me lembro do buteco, daquela esquina, dos meus amigos, nessa noite aonde meu tempo de infância me atormenta, me rouba o juízo, nessa noite em que nada faz sentido, nessa noite que se aproxima o mês de abril ( tenho medo do mês de abril), nessa noite na qual me perco em pensamentos, em lembranças, nessa noite nada faz sentido, nessa noite nem a chuva que cai lá fora alivia os tormentos, nessa noite sem nada para dizer ou até mesmo escrever, nessa noite que dá saudade de tua voz ( você sabe que é da tua), nessa noite que meu choro é compulsivo, nessa noite que desejo teu corpo, nessa noite que desejo tua fala simples e carinhosa, nessa noite apenas nessa noite, me perco na esperança do meu encontro, nessa noite na qual sonho acordado, ando me desfaço e me faço, nessa noite na qual a poesia me falta, nessa noite que tudo se mistura, nessa noite que nada faz sentido, nessa noite que a minha escrita vacila, te ver seria o encanto maior, seria o prazer maior apenas nessa noite venha ao meu encontro, venha.

domingo, 28 de março de 2010

DUO ABANÃ - CANTO LÍRICO DE ORIXÁS



Amante que sou da música, pesquisador, aprecia-dor, vivo intensamente à procura de novos artistas, novos compositores, novas bandas. Sei que o nosso país é rico, que a nossa música na minha modesta opinião é a melhor do mundo, na riqueza de ritmos, na diversidade.  Aqui vai uma dica, um disco que acabei de receber em mãos, um belíssimo trabalho. Estou emocionado por isso, escreverei pouco a respeito, deixo que vocês próprios que aqui lê essas mal traçadas se emocionem. Duo Abanã - Canto lírico de Orixás, fica a dica. É só dar play abaixo, para se emocionar.

O Duo Abanã é formado pelo Violonista Giovanni Di ganzá e pela Cantora Lírica Vanessa Teixeira, músicos de formação erudita que pesquisam autores e composições da nossa música raiz popular e também da nossa musica afro-brasileira.

Em 2004, ainda no conservatório, aconteceram os primeiros ensaios nos quais experimentava-se a sonoridade de transcrições para violão e voz de obras originalmente escritas para piano e voz. A partir dessa vivência em música de câmara e prática de conjunto, montou-se o repertório “EM CANTOS DO BRASIL” que trouxe composições de importantes músicos eruditos como Heitor Villa Lobos, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe, entre outros.

Desde 2007, o trabalho do Duo investiga a musicalidade afro-brasileira, baseando-se principalmente nos pesquisadores Mário de Andrade e Oneyda Alvarenga que foram os primeiros musicólogos-folcloristas do Brasil. Nesta pesquisa intitulada “Canto lírico de Orixás”, o Duo realizou seu trabalho de campo praticando aulas de percursão em centros de cultura popular, estudando batuques de terreiros de candomblé e também de festejos culturais afro-brasileiros.

Duo abana tem se apresentado em diversos eventos e saraus pela cidade de São Paulo.


Abanã em Tupi-Guarani significa “Cabelos Fortes”.

sábado, 27 de março de 2010

É tarde, no céu algumas estrelas se fazem presentes. Essa solidão que me entreguei, esse vazio que mergulhei, sem querer estar presente. Butecos que de uns tempos pra cá foram os meus lares, o meu reduto, a minha paz. O suspiro derradeiro. O estar emocionado, o se alegrar mesmo estando triste. Se foi. Hoje entregue as turbilhões que a vida me trouxe, me entreguei. Não quero sair, evito lugares tumultuados, quero a paz, quero a solidão, quero a mim mesmo. O meu silêncio o meu vazio.  Tudo isso, essa fase, essa solidão boa, esse estar  ausente, vem acompanhado de uma sensação de entrega, o tanto que já me entreguei, o tanto que me dividi, o quase nada que somei. Os caminhos que percorri, os que desisti no meio, os que sonhei, os corpos que sonhei nos quais jamais tocarei, nas mulheres que tanto amei e elas se foram. Deixaram muitas coisas, e um tanto levaram de mim, essa troca, essa doação, sinto imensas saudades delas nessa noite, sentado neste quarto escuto. O velho cinzeiro de vidro, um amontoado de guimbas apagadas, o velho copo americano, a velha vitrola tocando um disco triste, é a minha melhor companhia. Silêncio o meu pranto, conforme o suspiro derradeiro, espero como quem espera no leito de morte, a vida passa, já não faz tanto sentido assim, se ela passa ou se ela fica, se ela me leva ou se ela me deixa. Pois este eterno vagar que me encontro, não tem dia, nem hora pra acabar, e viver ou morrer já não faz tanta diferença assim.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Menina que anda ausente,
me mostra tua tatuagem,
cobre minha pele com teu amor.

Menina que não sei chamar de mulher,
que carrega dentro si, o dom de multiplicar,
que corre atrás dos sonhos, que se perde, que se encontra.

Menina me diga que poesia posso te escrever

Menina que anda ausente, me diga qual música tu ouve
neste momento.

O que fazes menina nessa cidade tão estranha,
em que bares tu entra menina.

Menina me diga qual é a marca do teu cigarro,
qual é teu signo.

Menina me diga se tua pele ainda é aquela pele bronzeada,
me diga, qual é o cheiro do sertão neste mês de março.

Menina, aonde tu se desfaz, aonde tu se encontra,
talvez tu venha ao meu encontro,
para enfim acabar como meu desencontro.

quarta-feira, 24 de março de 2010